A Neusa tem setenta e um. Ela está na cadeira faz doze anos, e foi do colo da cadeira de rodas que ela criou o neto dela, o Mateus.
Neusa trabalhou trinta e dois anos de cozinheira de escola pra ter uma aposentadoria.
Faz oito meses que a aposentadoria dela foi cortada, numa revisão que ela nem entendeu direito. Era ela que pagava o acompanhamento do Mateus as terapias que ensinam ele a falar e a se virar sozinho.
Parou o dinheiro, parou a terapia. E o menino começou a voltar pra trás. Palavra que ele falava, hoje não fala mais. Tem dia que nem o vó sai.
O doutor foi claro: é nessa idade que o Mateus mais aprende, e com um ano de terapia parada o que ele perdeu não volta nunca mais.
A Neusa voltou para cozinha. Acorda às quatro da manhã, faz os doces e empurra a cadeira seis quarteirões até a feira, com a caixa no colo.
O doce paga a comida da casa. A terapia custa mais do que ela junta em muitos meses de feira.
Ela passou a vida cuidando dos outros da escola inteira, do neto, de quem precisasse. Aos setenta e um anos, nunca tinha pedido nada pra ninguém. Essa é a primeira vez.
O Mateus ainda tem tempo.
Tudo pode começar a mudar para os dois, aqui em baixo: